27 de julho de 2007

Hoje vamos todos...


... fazer o que nos der na Real Gana!!!

E a que horas?
Às 23.30...

E onde?
Não... não é no Farol! É (e como não podia deixar de ser) na Tertúlia Castelense...

Oh yeah

17 de julho de 2007

First Day

Hoje foi o meu primeiro dia de estágio. Ouvi coisas como: “hmmm!… Estamos a fazer o inventário e extremamente ocupados, vai para o gabinete e explora os aparelhos, mexe em tudo, não tenhas medo! Carrega nos botões e vê o que acontece.”. Aqui a piqui pensa, “hmm… o aparelho mais pequeno que está aqui deve valer uns míseros 5 000 euros, por isso não deve haver problema…”. Então, deparo-me com o problema da discrepância entre os aparelhos “rústicos” da universidade, e com as “bombas electrónicas” ali dispostas à minha frente. A piqui que nunca teve medo de “tecnologias” desata a testar os ziliões de botões e opções e “ões” e “ões”…
Depois diziam-me coisas do género: “para ligares para números fixos carregas na tecla 0 e para telemóveis marcas o 28 e depois esperas e quando ouves bip-bip (mas na verdade o que ele disse mesmo foi pi-pi…) marcas o número de telemóvel e já está!”. Mais tarde apercebi-me que não era tão simples como parecia, além de ser incrivelmente difícil fazer uma chamada para telemóvel, o telefone não tinha um sistema sonoro muito bom, fazendo-me passar por surda, “Estou sim? Boa tarde,-… Estou?... Sim? Fala da-… Como? Ah! Sim…” enfim… Entretanto, deparo-me com a discrepância entre a qualidade dos aparelhos do gabinete e o mísero telefone que me confiaram…
Além de tudo isso, no meu local de trabalho é exigido o uso de uma bata. Bata essa que supostamente me teria sido fornecida… Mas não! Esqueceram-se… E o que é que uma pessoa que não tem bata faz num local em que é obrigado a usá-la? Nada! Rigorosamente nada.
Passei o resto do tempo a olhar para uma miúda vestida à Floribela versão Marilyn Manson, a tremer de frio por causa do ar condicionado, e a rogar mil pragas ao gajo que decidiu regular a temperatura, qual Homem das Neves na Idade do Gelo…
O que vale é que tenho um amigo com piscina, senão estava tudo lixado!

16 de julho de 2007

A Waltz for a Night

Let me sing you a waltz
Out of nowhere, out of my thoughts
Let me sing you a waltz
About this one night stand

You were for me that night
Everything I always dreamt of in life
But now you're gone
You are far gone
All the way to your island of rain

It was for you just a one night thing
But you were much more to me
Just so you know

I don't care what they say
I know what you meant for me that day
I just wanted another try
I just wanted another night
Even if it doesn't seem quite right
You meant for me much more
Than anyone I've met before

One single night with you little Jesse
Is worth a thousand with anybody

I have no bitterness, my sweet
I'll never forget this one night thing
Even tomorrow, another arms
My heart will stay yours until I die

Let me sing you a waltz
Out of nowhere, out of my blues
Let me sing you a waltz
About this lovely one night stand

Julie Delpy no delicioso filme "Before Sunset"

14 de julho de 2007

A merda é a mesma,

as moscas é que mudam.

12 de julho de 2007

Lost In Translation

Hoje revi o Lost In Translation. O filme, as cenas cortadas, as filmagens de bastidores, os extras todos! E mais! Com legendas em Inglês para deficientes auditivos... Acreditem em mim: é muito melhor. Em geral, as legendas em português (e se quiserem pior: em brasileiro!) têm um grave problema que, por acaso, coincide precisamente com o título deste filme. Entretanto, não podia deixar de registar aqui um diálogo delicioso, que entre outros, acabou por se destacar mais, entre o grande Bill Murray (Bob) e a castiça Scarlett Johansson (Charlotte). Enjoy...




-You know, the first time I saw you, you were wearing a tuxedo at the bar. You were very dashing. Charlotte
-I liked the mascara. But the first time I saw you was in the elevator. Bob
-Really?
-You don't remember?
-Mmm. I guess you do kind of blend in, huh? [ Chuckles ]. Did I scowl at you?
-No, you smiled.
-I did?
-Yes, it was a complete accident. A freak. I haven't seen it since. Just that one time. Like that, but bigger. Bigger. Yeah, big-- big--. Well, not that big.[ Chuckles ]
(…)
-Why do they switch the "R"s and the "L "s here? Charlotte
-Oh, for yuks. You know, just to mix it up. They have to amuse themselves. 'Cause we're not makin' 'em laugh. [ Chuckles ] Bob
-Let's never come here again, 'cause it would never be as much fun.
-Whatever you say. You're the boss.
(…)
-I'm stuck. Does it get easier? Charlotte
-No. Yes. It gets easier. Bob
-Oh, yeah? Look at you.
-Thanks. [ Chuckles ]. The more you know who you are, and what you want, the less you let... things upset you.
-Yeah. I just don't know what I'm supposed to be. You know? I tried being a writer, but... I hate what I write. And I tried taking pictures, but they're so mediocre, you know. Every girl goes through a photography phase. You know, like horses? You know? Take, uh, dumb pictures of your feet.
-You'll figure that out. I'm not worried about you. Keep writing.
-But I'm so mean.
-Mean's okay.
-Yeah? What about marriage? Does that get easier?
-That's hard.
-We used to have a lot of fun. Lydia would come with me when I made the movies, and we would laugh about it all. Now she doesn't want to leave the kids, and... she doesn't... need me to be there. The kids miss me, but they're fine.
-It gets a whole lot more complicated when you have kids.
-Yeah. It's scary. It's the most terrifying day of your life the day the first one is born.
-Yeah? Nobody ever tells you that.
-Your life, as you know it, is gone. Never to return. But they learn how to walk, and they learn how to talk, and... and you want to be with them. And they turn out to be the most... delightful people... you will ever meet in your life.
-Hmm, that's nice.
-Where'd you grow up?
-Um, I grew up in New York, and I moved to Los Angeles when John and I got married. But it's so different there.
-Yeah, I know.
-John thinks I'm so snotty. [ Chuckles ]
-Hmm... You're not hopeless.

9 de julho de 2007

Vamos, Nina

No te avergüences, Nina, no,
¿de qué vergüenza entenderá
el mala bestia de ese bar
que te pateó y que te escupió?
Acariciale el piojo al perro
que tenés, y le decís
que entre la mugre te encontraste
un hombro amigo en que morir.

Abrí las cuencas de los ojos,
bien abiertas y arrojá
de un solo vómito brutal
tu soledad y ¡vamonós!
Mirá que linda estás
con tu ternura en pie,
y no estás sola, Nina, no,
yo estoy con vos.

Nina,
no llorés, mordete los ojos,
cachame las manos bien fuerte,
si viene la muerte, mangala:
que pague, de prepo y de a uno
los días felices que debe.

Mi Nina,
con cabezas de paloma
correremos hasta nunca
por la tumba de los pájaros mendigos
que encontraron la salida
y saldremos de la roña
dandos saltos, transparentes,
inmortales, ¡vamos, Nina!¡

Vamos, Nina!,
corramos, mi vieja, corramos.
Si el viento te enreda el harapo,
si el frío te llaga las piernas,
no aflojes ni pares ni vuelvas,
ni esperes, gimas, corre, ¡corré!

No te avergüences Nina, no,
que nadie sabe bien quién es.
Mirá si soy el dios capaz
de hacer mil panes con un pan,
y vos la loca que una vez
roció sus trapos con alcohol,
y se incendió para no ver
los presidentes que se van.

Mirame, hermana, no temblés,
no tengas miedo de morir,
los vivos oyen a sus muertos
y hoy, por fin, nos van a oír.
Mirá qué linda está
tu dignidad en pie,
y no estás sola, Nina, no,
yo estoy con vos.

¡Vamos, Nina!, ¡vamos, Nina!,
no aflojes, ni pares, ni vuelvas,
ni esperes, ni gimas, corré, ¡corré!

Astor Piazzola

Daquelas Noites

Tudo começou no Coliseu do Porto com Pat Metheny na guitarra e Brad Mehldau no piano, nos primeiros temas. Estas duas lendas do Jazz transmitiram uma profunda ligação e harmonia através dos seus instrumentos, como se o som de um, se embalasse no outro. Mais tarde, o contrabaixista Larry Grenadier e o grande baterista e percussionista Jeff Ballard, completaram o quarteto, e juntos, tocaram em palco por cerca de duas horas e meia. Três vezes o público os chamou, três músicas “a mais” foram tocadas. “The Sound Of Water” foi um tema particularmente especial, por ter sido tocado com uma guitarra de 42 cordas. A sua sonoridade aproxima-se da de uma harpa e sugere quedas de água. Foi incrível sentir a enorme plateia emudecer e deixar-se envolver pelo dedilhar de um dos melhores músicos de Jazz norte-americanos.
Depois do Jazz, seguiu-se uma passagem pelo Contagiarte, para dar uma espreitadela nos desenhos do Mr. P que lá estão espalhados pelas paredes. O nome da exposição é “No Heart Feelings” embora não esteja explícito em lado nenhum…Parabéns Mr. P e não te preocupes, porque eu acredito na tua sanidade mental.
Ainda com a energia no auge, demos um saltinho no Plano B onde encontrei as pessoas que estava menos à espera de encontrar. Vizinhos de infância, amigos do curso, tudo e mais alguma coisa. Muitos abraços e beijinhos e muitas saudades dilaceradas.
Para finalizar, já em casela e mesmo mesmo antes de adormecer, o zapping parou na RTP África com o documentário “Não me obriguem a vir para a rua gritar”, sobre a vida e obra desse grande Zeca Afonso. E que bem que me soube…

7 de julho de 2007

Dúvida

A dúvida é uma alternância entre um “sim” e um “não”, uma impossibilidade de nos “inclinarmos” para um dos termos da alternativa sem que o outro venha a disputar a primazia. Pois o “sim” e o “não” prontamente aceites como definitivos, eliminam imediatamente a dúvida. A mente em dúvida oscila entre um termo e o outro sem encontrar um ponto de equilíbrio, já que um termo é o oposto do outro, e não consegue “inclinar-se” mais para um, sem negar o outro. Quando isso acontece, já não está em dúvida! No instante em que afirma ou nega, já não está em dúvida. Mas a dúvida não acaba enquanto não responde a um requisito fundamental de veracidade…
Não posso duvidar dos meus conhecimentos sem os afirmar repetidamente, num ciclo vicioso de afirmações e negações sucessivas. Mas “não se pode negar sem afirmar a negação, sem afirmar portanto alguma coisa”. Então, aquilo que constato, é que há uma impossibilidade de descobrir o que quer que seja por uma via em cuja definição está contida uma autocontradição…
Descartes diz-nos: “Não posso duvidar de que duvido no instante em que duvido”, ou seja, a única certeza que tem, é que duvida no instante em que não tem a certeza!
A dúvida é uma dúvida por si só… Alguém me ajude nesta (auto) definição…

6 de julho de 2007

Tudo bem

Tudo bem
Como exercício de prosa
Admitamos que não está mal
Eu podia ser mais crítico
Mas não me apetece
Não quero ser original

Tudo bem
Se me perguntas porquê
Eu respondo que é igual
Sou um observador comum
Com tendência para o compromisso
Tenho visão bilateral

E ninguém me pode negar o prazer da tua companhia
Sou o teu amigo público
Número não sei quantos milhões e mais alguns mil
Sou teu fã de nascença
Em permanente sintonia
Sempre pronto para tudo
Do mais sublime ao mais vil

Tudo bem
Aqui ninguém me conhece
Vou ser quem eu quiser
Vou seguir a minha pista
Abraçando o meu par
Fechar os olhos e ver

Tudo bem
Eu vejo alguém acordado
Vejo alguém a sonhar
Alguém voando na rua
Alguém andando no mar
E vejo alguém a duvidar

E ninguém me pode negar o prazer da tua companhia
Sou o teu amigo público
Número não sei quantos milhões e mais alguns mil
Sou teu fã de nascença
Em permanente sintonia
Sempre pronto para tudo
Do mais sublime ao mais vil

Tudo bem
A chama tem que existir
Faça chuva ou faça sol
Nas mais sinistras mentes
Nos corpos mais angelicais
Nas rendas do meu lençol

Tudo bem
Os morangos estão lá
Para quem os souber encontrar
Eternamente vermelhos
Despidos e sujos
Sem nada a declarar

E ninguém me pode negar o prazer da tua companhia
Sou o teu amigo público
Número não sei quantos milhões e mais alguns mil
Sou teu fã de nascença
Em permanente sintonia
Sempre pronto para tudo
Do mais sublime ao mais vil
Sempre pronto para tudo
Do mais sublime ao mais vil.

Tudo Bem (Os Morangos Estão Lá) , Jorge Palma

4 de julho de 2007

3 de julho de 2007

Compreender

foto by missEd
...a ventura de que o chão, sobre o qual estás parado, não pode ser maior do que os dois pés que o cobrem.

1 de julho de 2007

Justice - D.A.N.C.E.

Eeny Meeny Miny Moe



Gostava de fazer um "forward" rapidinho na minha vida, só até amanhã...

Depois ponho um longo "pause" em dia de sol e boa praia.






foto by missEd

26 de junho de 2007

Hable con ella

Dicen que por las noches
No más se le iba en puro llorar
Dicen que no comia
No mas se le iba en puro tomar
Juran que el mismo cielo
Se extremecia al oir su llanto
Como sufria por ella
Que hasta en su muerte la fue llamando

Ay, ay, ay, ay, ay
Cantaba
Ay, ay, ay, ay, ay
Gemia
Ay, ay, ay, ay, ay
Cantaba
De pasion mortal Moria

Que una paloma triste
Muy de mañana le va a cantar
A la casita sola
Con las puertitas de par en par
Juran que esa paloma
No es otra cosa mas que su alma
Que todavia la espera
A que regrese la desdichada
Cucurrucucu
Paloma
Cucurrucucu
No llores
Las piedras jamás
Paloma
Que van a saber
De amores

21 Grams

How many times do we die?... They say we all lose 21 grams... at the exact moment of our death.
Everyone.
And how much fits into 21 grams?... How much is lost?... When do we lose 21 grams?... How much goes with them?... How much is gained?... How much is gained?...
Twenty-one grams.
The weight of a stack of five nickels.
The weight of a hummingbird.
A chocolate bar.
How much did 21 grams weigh?

"Intervalo"


Ando com "formiguinhas" nas mãos para engatar a primeira, e nos pés para carregar no acelerador, para, no dia 28 de Junho às 23:30, me sentar na primeira mesa livre que encontrar na Tertúlia Castelense (isto, desde que recebi a newsletter, ainda no mês passado!!).
Perguntam vocês: "Mas porquê?"
Pois eu respondo que a causa de tal ansiedade é o espectáculo "Intervalo" , em que o criativo mágico e cómico Helder Guimarães, nos presenteia com os seus caricatos e hilariantes números de magia. Assisti ao "Incompleto - Parte I" e foi bem além das minhas expectativas. Fiquei particularmente admirada com o "à vontade" do artista e a sua grande capacidade de interacção com o público de uma forma dinâmica e no mínimo, encantadora. Agora imaginem... Não vou fazer (mais) publicidade porque os links aqui indicados, já o fazem (e muito bem). Apenas tenho a comunicar ao Sr. Helder Guimarães que me aguarde porque eu vou literalmente "sit back, relax and enjoy de show..."

25 de junho de 2007

My sweet Diva...

You made me leave my happy home
You took my love and now you're gone
Since I fell for you

Love brings such misery and pain
I guess I'll never be the same
Since I fell for you

It's so bad, It's so sad
I'm in love with you
You love me, then you snub me
But what can I do
I'm still in love with you

I guess I'll never see the light
I get the blues 'bout every night
Since I fell for you
Since I fell for you

"Since I Fell For You", Sugar in my Bowl, Nina Simone (1933-2003)

23 de junho de 2007

São João


...porque é que hoje não me deste um balão para eu brincar?...

I AM THE DOOR




Life...

...it's a sexually transmitted disease.

21 de junho de 2007

20 de junho de 2007

Seu Jorge "Cru"



Este é o cd"zaço" que me tem acompanhado na última semana. Com temas como "Fiore De La Citta", "Don't", "Sao Gonça", "Bola De Meia" e "Una Mujer ", as atribuladas viagens de um verdadeiro R5 tornam-se deliciosas e quanto mais duradouras, melhor! Isto porque, quando acaba um tema, o seguinte nunca se encaixa na secção "não me apetece ouvir esta agora...". O disco gira sempre e em perfeita rotação. Este é um senhor com uma voz incrível e cheia de personalidade, que transpira musicalidade e bem estar. Senhor que aspira à evolução do samba, que pretende "mostrar para onde o ritmo ainda pode seguir."

Maré de Sorte

foto by missEd


Ponto nr. 1 - Tive uma óptima proposta de emprego


Ponto nr. 2 - Ganhei ao jogo


Ponto nr. 3 - Não tenho ninguém, mas também não sofro por ninguém





Quando a esmola é grande, o pobre desconfia...


O que virá aí?...

17 de junho de 2007

Eco

foto by missEd

Queria apenas tentar viver aquilo que brotava espontaneamente de mim. Porque isso me era tão difícil?

Para relatar a história da minha vida, devo recuar alguns anos. Se me fosse possível, deveria retroceder ainda mais, à primeira infância, ou mais ainda, aos primórdios da minha ascendência.
Os poetas, quando escrevem novelas, costumam proceder como se fossem Deus e pudessem abranger com o olhar toda a história de uma vida humana, compreendendo-a e expondo-a como se o próprio Deus a relatasse, sem nenhum véu, revelando a cada instante a sua essência mais íntima.
Não posso agir assim, e os próprios poetas não o conseguem. A minha história é, no entanto, para mim, mais importante do que a de qualquer outro autor, pois é a minha própria história, e a de um homem – não a de um personagem inventado, possível ou inexistente em qualquer outra forma, mas a de um homem real, único e vivo.
Hoje sabe-se cada vez menos o que isso significa, o que seja um homem realmente vivo, e que se entrega à morte sob o fogo da metralha a milhares de homens, cada um dos quais constitui um ensaio único e precioso da Natureza. Se não passássemos de indivíduos isolados, se cada um de nós pudesse realmente ser varrido por uma bala de fuzil, não haveria sentido algum em relatar histórias.
Mas cada homem não é apenas ele mesmo; é também um ponto único, singularíssimo, sempre importante e peculiar, no qual os fenómenos do mundo se cruzam daquela forma uma só vez e nunca mais. Assim, a história de cada homem é essencial, eterna e divina, e cada homem, ao viver em alguma parte e cumprir os ditames da Natureza, é algo de maravilhoso e digno de toda a atenção. Em cada um dos seres humanos o espírito adquiriu forma, em cada um deles a criatura padece, em cada qual é crucificado um Redentor.
Poucos são hoje os que sabem o que seja um homem. Muitos o sentem, e por senti-lo, morrem mais aliviados, como eu próprio, se conseguir terminar este relato. Não creio ser um homem que saiba. Tenho sido sempre um homem que busca, mas já agora não busco mais nas estrelas e nos livros: começo a ouvir os ensinamentos que o meu sangue murmura em mim. Não é agradável a minha história, não é suave e harmoniosa como as histórias inventadas; sabe a insensatez e a confusão, a loucura e a sonho, como a vida de todos os homens que já não querem mais mentir a si mesmos.
A vida de todo o ser humano é um caminho em direcção a si mesmo, a tentativa de um caminho, o seguir de um simples rastro. Homem algum chegou a ser completamente ele mesmo; mas todos aspiram a sê-lo, uns obscura, outros mais claramente, cada qual como pode. Todos levam consigo, até ao fim, viscosidades e cascas de ovo de um mundo primitivo. Há os que não chegam jamais a ser homens, e continuam a ser rãs, esquilos ou formigas. Outros que são homens da cintura para cima e peixes da cintura para baixo. Mas, cada um deles é um impulso em direcção ao ser. Todos temos origens comuns: as mães; todos proviemos do mesmo abismo, mas cada um – resultado de uma tentativa ou de um impulso inicial – tende a seu próprio fim. Assim é que podemos entender-nos uns aos outros, mas somente a si mesmo pode cada um interpretar-se.

Herman Hesse (1877-1962), in “Demian”